Tive a oportunidade de viver durante alguns anos no
Peru.
Durante o período em que vivi no país vizinho,
realizei algumas viagens para visitar parte da família no Brasil.
Nessas viagens algo sempre me chamou a atenção.
Quando chegamos ao Peru, devemos preencher um formulário chamado "Tarjeta
Andina de Migraciones", ou Cartão Andino de Migrações. Neste documento há
um espaço onde o viajante deve informar sua nacionalidade e outro onde deve
informar o país de nascimento.
Nunca entendi esta coisa, se eu sou brasileiro, é
porque nasci no Brasil, oras bolas.
E a história se repetia viagem após viagem, até que
nasceu minha filha Letícia. Chiclayana (nascida em Chiclayo- uma cidadezinha
encantadora na região norte do Peru), não possuía nem o passaporte
brasileiro.
Quando viajamos com Letícia a primeira vez ao
Brasil e tivemos que preencher seu documento de migração, foi aí que passei a
entender a diferença entre nacionalidade e país de nascimento.
Apesar de estarmos já a alguns anos vivendo fora do
Brasil e de termos nos adaptado à cultura local, sempre fomos conscientes de
que éramos estrangeiros naquele país.
O país de nascimento de Letícia é o Peru. Sobre
isso não se discute. Eu estava lá, eu vi. Mas, qual era a nacionalidade da
Letícia? O que define a nacionalidade de uma pessoa? O que eu deveria registrar
no documento?
Em lugares públicos, ou na presença de peruanos,
procurávamos falar sempre em espanhol, mas o idioma "oficial" da casa
sempre foi o português. Pelo menos uma vez por mês conseguíamos uma picanha
para fazer nosso churrasco. Minha esposa ensinava minhas filhas a pular
amarelinha e as cantigas de roda que costumava cantar na sua infância.
Reuníamos os amigos para assistir às partidas da seleção brasileira de futebol.
Não havia como negar, aquela era uma casa de brasileiros.
Me faz lembras das palavras de Jesus quando orava
por seus discípulos:
“Assim
como eu não sou do mundo, eles também não são.” (João
17:16).
Nascemos e vivemos neste mundo, assim como Letícia
no Peru, mas somos estrangeiros aqui, assim como ela era lá.
Muito mais que o local do nosso nascimento são a
forma como vivemos e os valores que assumimos que determinam nossa verdadeira
nacionalidade.
Somos chamados a viver neste mundo segundo valores
do Reino de Deus. Como Abraão, devemos habitar esta terra como estrangeiros,
com a consciência de que não somos daqui, pertencemos à “cidade que Deus
planejou e construiu, a cidade que tem alicerces que não podem ser
destruídos".
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