Meu avô era dono de um pequeno mercadinho perto de nossa casa. Ele, como todos os mercadinhos de bairro, possuia um "sistema de vendas a crédito", a boa e velha caderneta, onde ele anotava as compras com a esperança de que em um futuro próximo o cliente voltasse pra pagar.
Uma vez saldada a dívida, ele riscava do caderninho o registro correpondente, literalmente "passava a régua", habilitando o cliente a iniciar um novo ciclo de consumo.
Sempre tive problemas com meu temperamento. Muito paciente, acabo cedendo espaço além do devido e, no final por algo aparentemente banal, "chuto o balde", pego a minha bola e vou para casa acabando com a brincadeira de todos.
Recentemente passei por um desses episódios. Trabalhando fora do Brasil por mais de seis anos, com a familia já plenamente adaptada a uma nova cultura e idioma, decidi que era hora de dizer "basta" a um regime de trabalho insano, que físicamente consumia todas minhas forças e espiritualmente me fazia distanciar dos meus ideais, e regressei com toda a família ao Brasil.
Este tipo de atitude sempre trouxe consigo uma grande dose de culpa. Um sentimento de ter abandonado algo pela metade, de não ter me esforçado o suficiente para reverter a situação, de ter deixado algo sem resolver, acabava invariavelmente me atormentando.
Faltava "passar a régua" como fazia meu avô em seu estabelecimento. Faltava cerrar um ciclo.
Mas me lembro também de que "passar a régua", que significava o fim de um ciclo nas cadernetas de meu avô, nem sempre era sinônimo de resolver uma questão. Às vezes, o cliente renegociava sua dívida e, em alguns casos chegava a declarar-se incapaz de pagar-la. De igual forma meu avô "passava a régua" e, mesmo que assumindo um enorme risco, contabilizava o prejuízo e concediam novo crédito ao cliente.
Esse tipo de atitude sempre me incomodou, iniciar um novo ciclo sem haver encerrado adequadamente o anterior.
Esse tipo de atitude sempre me incomodou, iniciar um novo ciclo sem haver encerrado adequadamente o anterior.
No livro de Gênesis, vemos o registro de algo bastante parecido:
"Quando o Senhor viu que as pessoas eram muito más e que sempre estavam pensando em fazer coisas erradas, ficou muito triste por haver feito os seres humanos. O Senhor ficou tão triste e com o coração tão pesado, que disse: — Vou fazer desaparecer da terra essa gente, que criei, e também todos os animais, os seres que se arrastam pelo chão e as aves, pois estou muito triste porque os criei." Gn. 6:5-7.
Deus, o onipotente Senhor do universo, decidiu "passar a régua". Tendo o poder para solucionar qualquer situação, resolveu (por algum motivo que não podemos explicar) que era melhor contabilizar o prejuízo e iniciar uma nova caderneta.
Não quero estimular ninguém a desistir de lutar para consertar as coisas que estão ao seu alcance, nem tampoco negar a existencia de coisas pelas quais vale lutar toda uma vida, mas quero chamar a atenção para o fato de que existem situações específicas em que continuar lutando apenas prolongará o sofrimento. Nessas situações, o melhor que temos a fazer é nos sujeitar à vontade de Deus, passar a régua e pedir-lhe que derrame de seu bálsamo curador sobre nossas vidas.
Peçamos a Deus sabedoria para identificar este tipo de situação.